A nacionalização do dinheiro e a derrocada da família

A partir do momento que o dinheiro foi nacionalizado, ele foi colocado sob o comando de políticos que atuam com horizontes de tempo curtos de poucos anos, fazendo o possível para serem reeleitos. Era natural que esse processo levasse a tomadas de decisões de curto prazo em que os políticos fazem mal uso da moeda para financiar suas campanhas à reeleição às custas das gerações futuras.


Como disse o falecido jornalista H. L. Mencken: “Cada eleição é um leilão antecipado de bens roubados.” Em uma sociedade onde o dinheiro é livre e lastreado, os indivíduos precisam tomar decisões a respeito de seu capital que afetam suas famílias no longo prazo. Embora seja provável que alguns tomem decisões irresponsáveis que prejudicam seus descendentes, aqueles que desejam tomar decisões responsáveis têm a opção de fazê-lo. Com o dinheiro nacionalizado, entretanto, essa se tornou uma escolha cada vez mais difícil de se fazer, pois o controle central da oferta de moeda, por parte do governo, inevitavelmente destrói os incentivos para a formação de poupança ao mesmo tempo que aumenta o incentivo para a tomada de empréstimos. Não importa o quão prudente seja uma pessoa, seus filhos ainda assim testemunharão suas economias perderem valor e terão que pagar impostos para cobrir a liberalidade inflacionária de seu governo.


Ao passo que a redução na herança intergeracional reduziu a força da família como uma unidade, o talão de cheques ilimitado do governo aumentou sua capacidade de direcionar e moldar a vida das pessoas, permitindo-o desempenhar um papel cada vez mais importante em mais aspectos da vida dos indivíduos. A capacidade da família de financiar o indivíduo foi eclipsada pela prodigalidade do estado, resultando em uma diminuição dos incentivos de se manter uma família.

Em uma sociedade tradicional, os indivíduos estão cientes de que precisarão de filhos para sustentá-los no futuro, e assim passarão seus anos saudáveis de juventude formando uma família e investindo para dar a seus filhos a melhor vida possível. Mas se o investimento de longo prazo em geral é desincentivado, se economizar é contraproducente visto que o dinheiro se deprecia, esse investimento se torna menos proveitoso. Ademais, conforme os políticos vendem às pessoas a ideia de que os programas governamentais são eternos e de que os benefícios da aposentadoria são concebíveis por meio da mágica da impressão de dinheiro, o investimento em uma família torna-se cada vez menos valioso. Com o tempo, o incentivo para começar uma família diminui e mais e mais pessoas acabam levando vidas solteiras. Mais casamentos tendem a fracassar, pois os cônjuges ficam menos propensos a fazer o investimento emocional, moral e financeiro necessário para fazê-los funcionar, ao passo que os casamentos que sobrevivem provavelmente produzirão menos filhos. O conhecido fenômeno do colapso moderno da família não pode ser compreendido sem o reconhecimento do papel da moeda fiduciária permitindo ao estado apropriar-se de muitos dos papéis essenciais que a família desempenhou por milênios, e reduzindo o incentivo de todos os membros de uma família para investir em relações familiares de longo prazo.

Substituir a família pela generosidade do governo foi, sem dúvida, uma troca prejudicial para os indivíduos que dela participaram. Diversos estudos mostram que a satisfação com a vida depende em grande parte do estabelecimento de laços familiares íntimos de longo prazo com um parceiro e de filhos. Vários estudos também mostram que as taxas de depressão e doenças psicológicas estão aumentando com o tempo à medida que a família se desintegra, especialmente entre as mulheres. Muito frequentemente, os casos de depressão e distúrbios psicológicos têm a desagregação familiar como causa principal.

Não é coincidência que a desagregação da família tenha acontecido por meio da implementação dos ensinamentos econômicos de um homem que nunca teve interesse no longo prazo. Filho de uma família rica que acumulou um capital significativo ao longo de gerações, Keynes foi um hedonista libertino que passou a maior parte de sua vida adulta se envolvendo em relações sexuais com jovens, incluindo viagens pelo Mediterrâneo para visitar bordéis infantis¹. Enquanto a Grã-Bretanha vitoriana era uma sociedade de baixa preferência temporal, com forte senso de moralidade, baixo conflito interpessoal e famílias estáveis, Keynes fazia parte de uma geração que se rebelou contra essas tradições e as viu como uma instituição repressiva a ser derrubada. É impossível entender a economia de Keynes sem entender o tipo de moralidade que ele pretendia ver em uma sociedade que ele cada vez mais acreditava que poderia moldar de acordo com a sua vontade.

¹Ver Michael Holroyd, Lytton Strachey: The New Biography, vol. I, p. 80, no qual em uma carta enviada por Keynes para seu amigo Lytton Strachey no conjunto de Bloomsbury aconselhou-o a visitar Túnis “um lugar onde cama e garotos não eram caros.” Ver também David Felix, Keynes: A Critical Life, p. 112, que cita uma carta de Keynes na qual ele informa um amigo, “Estou indo para o Egito. . . Acabei de saber que 'a cama e os meninos' estão preparados..” Em outra carta, ele recomendou que Strachey fosse para Túnis e Sicília “se você quiser ir para onde os meninos nus dançam”.

Safedean Ammous, "The Bitcoin Standard", cap. 5 "Money and Time Preference", págs. 94-96.

Tradução: Marcelo Lopes

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